Devanildo's profileNoticiaPhotosBlogGuestbookMore Tools Help

Blog


    September 14

    Despejo Ñanderu Laranjeiras: o extermíndio é assim

    Por Lauriene Seraguza

     O tempo está fechado. Do céu, ameaça cair água. Água que tanta falta faz nas panelas dos Guarani e Kaiowá  que foram despejadas ontem, 11 de setembro de 2009 da área indígena Ñanderu Laranjeiras de Rio Brilhante, MS.

    Por ordem da justiça, os indígenas tiveram que se retirar até as 12h e 40 minutos deste dia.  Mais uma vez foram expulsos de sua terra. Lá tinham casas, mata, rios, histórias. Em meio ao desespero das crianças, de idosos, de todos, uma liderança se levanta e afirma: “O nosso sangue também é vermelho. ” Será? Será leitor que o sangue dos indígenas é tão vermelho quanto o dos não indígenas?

    Porque se for, o que justifica tanta falta de respeito para com os outros? Pois sim, o problema não é o da cor do sangue, trata-se de um problema social e que não é recente.

    Tudo começou com a questionável teoria de que Cabral, junto com os demais portugueses, descobriram o Brasil. Por acaso, eles estavam a correr para as Índias em busca de especiarias, quando no meio do caminho tinha uma pepita. Valiosa, mui valiosa amigos. Desde então, o escrivão Pero Vaz de Caminha, já documentara a existência dos povos indígenas.

    Mas até hoje, muitos insistem na inexistência deles. Ou na crença de que eles não eram daqui.

    Os portugueses, salvo muitos da atualidade, invadiram o Brasil. Impuseram sua língua, sua religião, seus costumes, seus hábitos alimentares. E muitas de suas limitações para entender a lógica cultural dos outros.

    E há mais de 500 anos, os povos indígenas vem sendo execrados pela sociedade por lutarem para que sua cultura permaneça. Lutando pela garantia de sua identidade étnica; que o capitalismo persiste em massificar.

    Por acaso, o “dono”, (digo assim porque não consigo compreender, conceber a terra enquanto propriedade privada) da fazenda onde os índios Guarani e Kaiowá da Ñanderu Laranjeiras foram despejados é conhecido como Português. Sei que há muitos portugueses que não merecem essas palavras, mas não importa, não é a eles a quem me refiro.

    O Português conseguiu, por enquanto, que os índios fossem expulsos de suas terras. Os índios, sem ter para onde ir, foram para o lado de lá da porteira, onde a extinta floresta, é cortada por uma rodovia veloz.  Montaram barracas de lona, simples e barata doada por alguém, que com certeza não resistiria à água que prometia os céus. Nem ao sol escaldante que precedia tal chuva.

    Foi embaixo desse sol escaldante, em que se prostravam crianças, idosos, homens e mulheres em posição de desespero e luta; juntos, unidos, que receberam a presença esperada da Polícia Federal. Em várias viaturas, vestidos de preto, os homens com armas, as mulheres com spray de pimenta, chegaram para o “diálogo”. As crianças Guarani e Kaiowá olhavam curiosas e intrigadas sem entender o motivo da presença dos policiais ali. Já os policiais, olhavam intrigados a se perguntar do porquê os índios davam as mãos, as mulheres batiam a taquara no chão, em roda, homens, mulheres, crianças, sorrindo, cantando. Rezando.

    O Português chegou. Os índios em coro pediam para que ele saísse. Ele não podia compartilhar tanta tristeza. Ele era o culpado.

    Quando as viaturas se foram, deixaram aos índios um prazo de cinco dias para retirarem as estruturas de suas casas e a permissão para que eles permanecessem em frente a fazenda. No limite da porteira até a beira da rodovia. Isso, para que pudessem recomeçar já que são de lugar nenhum e lá estão, em vigília constante. De mãos dadas puxaram um guaxiré, esperançosos por justiça, desamparados, abandonados. Mas não terão medo. E Não desistirão. Porque são o povo Guarani, o grande povo.

    A chuva chega no sol poente. Os Guarani e Kaiowá ficaram lá. Mais uma vez, a esperar. Maldito seja o latifúndio. Malditas sejam todas as cercas da propriedade privada. Demarcações Já!


     

    [1] Referência  a música Extermíndio de Fernando Bola.

    [2] laurieneseraguza@yahoo.com.br




    September 04

    POVO GUARANI KAIOWÁ

    Por Tonico Benites
    O processo de colonização do território guarani kaiowá começou no período colonial e perdura até os dias atuais. A partir do século XVII seu território foi considerado terra devoluta e os guarani taxados como pagãos, infiéis, errantes e bélicos. O modo de viver dos indígenas não estaria de acordo com a virtude morais e o preceito normalidade da cultura ocidental dominante. Assim, justificavam a interferência na vida dos indígenas através de atividades catequéticas e civilizatórias na lógica de dominação européia.


    Subtraindo e comercializando os recursos naturais e exterminando os povos indígenas através de processos de violências truculentas. Essas inúmeras descrições e argumentações dos jesuítas, viajantes e administradores coloniais servem até hoje como bases para sistematizar a política de etnocídio na América do Sul.

    A etnia guarani kaiowá do Mato Grosso do Sul foi uma das vítimas dessa política de extermínio. A partir do século XX, ocorreu a ocupação planejada do território guarani pelos pecuaristas apoiados pela política do Estado, através do órgão indigenista Serviço Proteção aos Índios, criando entre 1915 e 1928 oito minúsculas áreas denominadas de Posto Indígena, exclusivamente para confinar as famílias guaranis e liberar o resto das terras aos fazendeiros. Atualmente, essas áreas criadas não oferecem os mínimos recursos naturais e estão superlotadas.

    Os indígenas se deparam com diversas situações degradantes e constrangedoras para viver como guarani kaiowá, condenados a sobreviverem confinados em uma terra destruída e sem água potável. Sem condições de se manifestar segundo a cultura guarani.

    Por esse motivo, grande parte dos integrantes do guarani kaiowá, nos últimos vinte anos entrou em estado de profundo desespero, perplexidade e melancolia, situação que levou ao suicídio mais de 1.000 guarani.

    Hoje os guarani kaiowá do MS somam aproximadamente 45.000 indivíduos e estão distribuídos em espaços de terras com tamanhos variados, em diferentes condições de regularização fundiária (demarcadas, identificadas, sem nenhuma providência e aguardando reconhecimento do Estado) os quais denominados de posto indígena, aldeia, reserva, terra indígena, acampamento, área conflito. São assentados também em margem da rodovia e periferia das cidades.

    Neste contexto, os agentes das instituições públicas e organizações religiosas têm compreensão e discursos homogêneos sobre o guarani kaiowá. Contribuem com diversas políticas públicas homogeneizantes, com o intuito de transformar o kaiowá em cidadão comum menos favorecido, assim sendo explorado a mão de obras indígenas como escravos nas usinas de álcool.

    A Justiça Federal interrompeu os procedimentos de regularização de muitas terras e mandou expulsar os indígenas de suas terras tradicionais. Em decorrência disso muitos líderes kaiowá foram assassinados por pistoleiros das fazendas ou presos ilegalmente por reivindicar as suas terras originais. Não há punição para esses crimes.

    Essas situações dramáticas foram configuradas principalmente por falta de terras e escassez de recursos naturais. Diante dos fatos vividos os líderes guarani resistem e lutam pela recuperação da terra, baseados nos seus direitos constitucionais Constituição Federal de 1988. Visando a garantir a continuidade de modo de ser e viver do guarani kaiowá.


    Nota:
    Tonico Benites é Guarani Kaiowá, professor, mestre e doutorando em antropologia pela UFRJ/RJ